Profa. Dra Cleomar Oliveira
A escrita é uma forma de manifestação lingüística humana que supõe uma comunicação simbólica por meio de um código diferenciado segundo as culturas. Este código não é figurativo, é um código simbólico.
Segundo Ajuriaguerra (1980, p.125) ”a escrita é uma forma de expressão da linguagem que implica em uma combinação simbólica”.
A escrita pode manifestar-se sob três formas:
- Escrita copiada que constitui o método de aprendizagem inicial e requer uma adequada destreza grafomotora e perceptiva e uma memória visual suficiente;
- Ditada a qual requer uma boa capacidade de memória auditiva e, ao mesmo tempo internalização prévia dos grafemas e sua correspondente relação fonemática. Intervém ainda a capacidade de seqüenciar ou ordenar os estímulos auditivos que através de uma representação mental, irão se transformar em linguagem escrita;
-Escrita espontânea processo de maior complexidade, pois não está presente nem o modelo visual Enem o modelo auditivo a ser reproduzido e exige uma boa linguagem interior da criança.
Segundo Zazzo (1968, p.41) ”todo traço executado é o prolongamento de um gesto e, portanto o rastro possível de um movimento”. Para que isto aconteça é necessário um rol primordial de desenvolvimento da função gráfica. Como conseqüência a escrita correta implica no respeito a boa forma da letra e de suas relações, que vinculadas a precisão do traço evidencia as características do seu movimento indutor. Revelando assim a dependência da função gráfica a integridade do desenvolvimento.
As condições necessárias para o início do ensino da escrita, apóiam-se no seguinte:
- desenvolvimento suficiente da inteligência;
- adequado desenvolvimento sócio-afetivo, é importante para que o sistema nervoso se mielinize desde a gestação até adolescência. Requer ainda para um adequado desenvolvimento das suas estruturas, um bom estado de estimulação ambiental;
- adequado desenvolvimento sensório-motor:
.integração sensorial (visual e auditiva) correta;
.ausência de transtornos motores intensos;
.desenvolvimento suficiente da estruturação do espaço temporal;
.destreza motora para apreensão do lápis;
.motricidade global, sem transtornos importantes que afetem a coordenação, velocidade ou equilíbrio;
.motricidade manual sem perturbações importantes;
.não apresentar transtornos neurológicos que por sua intensidade impeçam uma adequada fixação (transtornos de atenção,agnosias ou apraxias graves);
.lateralidade definida.
Deficiências e alterações dos processos integradores da função gráfica
(é a parte da totalidade que o ato motor de escrever, e ao qual se põe em jogo, um complexo processo psicomotor de escrever, no qual participam importantes componentes de diversos caracteres. Estes interagem na regulação do movimento correto que produzem os traços claros e legíveis da escrita normal) provocam modificações na qualidade da letra que conformam uma sintomatologia disgráfica. Estas podem prejudicar totalmente a compreensão da escrita como também levar a graves alterações, não permitindo a leitura, caracterizando-se então em uma ‘franca disgrafia’ ou em uma ‘dispraxia específica da escrita’.
Imagem Mental da Letra
Vin Bang em sua análise da escrita considera como valor prioritário, a existência da reprodução mental da forma de letra ou a imagem internalizada da mesma, que atua no momento da escrita, como matriz sobre a qual gesta a grafia.
Através da nossa experiência comprovamos a conveniência de dar conteúdo à forma, associando seu som e nome ao movimento do traço que representa. Desta forma a imagem mental desta letra ficará organizada sobre padrões que devem associar-se acoplando-se ao movimento de escrita. Temos três padrões que são específicos para cada letra:
- Padrão Visual: estabelecido sobre a percepção visual. É o que permite a identificação da forma da letra isolada ou entre outras;
- Padrão Auditivo: que estabelece sobre a percepção auditiva e ortoga a identificação do som que lhe corresponde e ao seu nome específico;
- Padrão Cinestésico ou Motor: que emerge da tomada de consciência do movimento que consiste o traçado da letra.
Quando a imagem mental da letra é vaga, difusa ou alterada aparecem erros na escrita espontânea. Quando as dificuldades residem na identificação do fonema correspondente, o erro aparece no ditado. Quando os equívocos se produzem durante a cópia, a perturbação reside no padrão visual não reconhecido ou na área perceptivo-visual onde sua memória imediata de translação é demasiadamente breve ou frágil. E, qualquer das circunstâncias mencionadas, põe-se em evidencia as dificuldades na apreensão, dos estímulos, através das vias percepto sensório-motoras e seu posterior processamento. Estes integram a pluralidade do circuito visual-auditivo e cinestésico, posto em jogo, durante o ato de escrever. Sua diferente apreensão origina alterações na imagem mental da letra em conseqüência na estrutura anômala da letra e da palavra. As dúvidas da criança fazem com que se modifique a forma das letras suprimindo ou agregando rasuras, eliminando enlaces ou sustendo uma letra sobre a outra, que se admite parecida. É freqüente usar: n por m; r por s; a por o; l por b; g por q ou vice versa.
A repetição diária deste procedimento deixa inacabada a memória motora da escrita. Através da destes erros, fixa e mecaniza-os, e até o final do 4ª ano do primeiro grau, pode-se conformar uma escrita atípica, nada convencional, com diferentes graduações de alterações no traçado, chegando a impedir a compreensão do escrito Quando isto acontece, a escrita deixa de cumprir seu papel de linguagem comunicante e já não tem valor como código decifrável, e pode-se considerar instalada a ‘disgrafia’.
É a partir daí que se deve reverter as condutas anômalas, iniciando-se uma complexa e progressiva intervenção psicopedagógica. Esta abarcará a multiplicidade dos processos integradores da função gráfica, que precedem de fatores do desenvolvimento, para logo se chegar especificamente à regulação da letra.
Processos Integradores da Função Gráfica
Contamos com: 1) Fatores de compromisso tônico: evoluem da atividade tônica global: - Tônus de base equilibrado e capacidade para modulá-lo, segundo as exigências da ação;
Elasticidade para a troca contínua da qualidade tônica dos movimentos breves dos dedos, durante o traçado das letras;
Posição do Corpo sentado e a manutenção da posição (controle inibitório);
Postura de braços e mãos e seus movimentos;
Pressão correta do lápis sobre o papel;
Preensão correta do instrumento (pinça completa);
Domínio da musculatura ocular durante a fixação (focalização) e do deslocamento do olhar (leitura);
Controle Visual com elasticidade no movimento da mão co permanência estável na cópia em seguimento contínuo.
2) Fatores Evolutivos: previstos pelos níveis de desenvolvimento:
- Dominância lateral de mão estabelecida sem dúvida aos 6 (seis) anos;
- Dissociação controlateral de membros superiores, homolateral de ombros e braços; braço e mão; dedos entre si e capacidade de giro do punho. Vai permitir o controle voluntário dos movimentos e a precisão do gesto.
3) Fatores Psíquicos transtornos transitórios como crises de desenvolvimento,provocando alterações da escrita ocasionais ou permanentes.
4) Fatores dinâmicos com base na integração tônica e neuromuscular:
- Coordenação viso-motora ajuste dos padrões de deslocamento visual sobre os padrões cinéticos de deslocamento da mão. A coincidência de ambos produz o guia visual correto do movimento da mão, necessário à tarefa escolar. Se põe em jogo durante o traçado e a ordenação das letras, nas atividades de coordenação fina, como desenhos,recortes,pinturas,etc.;
- Ritmo depende da integração neuromuscular, da regulação e da mobilidade tônica. É um fator primordial para a repetição e continuidade do movimento.
5) Fatores Psicofuncionais abordados pelos processos psíquicos e inteligentes que participam na aprendizagem com predomínio das representações mentais, que atuam na dinâmica cerebral:
- Organização Espaço-Temporal compreende as localizações, direções, coordenadas e relações nos três níveis do espaço: subjetivo, objetivo e gráfico onde sucede a escrita;
- Esquema Corporal das Mãos com a representação mental das mãos, suas formas e constituições, suas gnosias e movimentos específicos, facilitam o manejo e capacita a aquisição de habilidades. Facilitam a execução da ordem mental.
Imagem Mental da Letra – durante a aprendizagem se gesta a representação mental de cada letra e ainda os padrões visuais, auditivos, auditivos e motores que lhe são próprios, se organizam por via do padrão auditivo visual e mistos que atuam simultaneamente dando uma representação única à forma, som, nome e movimentos inscritos, que é próprio de cada letra.
Quando alguns destes padrões estão imperfeitos ou débeis, incidirá na confusão de fonemas ou letras com formas parecidas ou na imprecisão do traçado. Portanto é imprescindível que a criança alcance um nível de desenvolvimento psicomotor suficiente para sustentar as exigências da aprendizagem e seus registros escritos. Para poder manejar o traçado circunscrito a um pequeno território espacial, ela deverá possuir ganhos anteriores que derivam de processos globais da totalidade do corpo, referentes a equilibração correta do lápis,controle visual sobre o modelo e sobre sua mão que deve guiar o traçado,manejo correto do espaço pleno, diferenciação das formas,discriminação dos sons entre tantas outras condutas inerentes e imprescindíveis para poder se chegar à escrita.
Bibliografia
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FERREIRO, Emilia & TEBEROSKY, Ana – Psicogênese da Língua Escrita ArtMed Editora,Porto Alegre,1999
GATÉ, Jean-Pierre Educar par o Sentido da Escrita- Edusc, Bauru Estado de São Paulo, 2001
SANTOS, Maria Thereza Mazorra dos & NAVAS, Ana Luiza G.P. – Distúrbios de Leitura e Escrita – Teoria e Prática Editora Manole Ltda São Paulo,2002
São Paulo, 26 de setembro de 2010