Adolescência sim… Aborrecência não!
Mônica Hoehne Mendes – Ms em psicologia
O que é adolescência?
Falar sobre adolescência é sempre um desafio, pois é falar de algo que em muitos momentos é um enigma. Vejo a adolescência como um período da vida do ser humano, constituído de momentos difíceis e desafiadores, não só para quem o vive, como para quem está à sua volta.
É um período marcado por mudanças biológicas e consequentemente emocionais. Caracteriza-se por um esforço vigoroso para crescer, com frequentes impulsos para o agir e encarar a realidade; é a busca da independência. É um processo de adaptação a realidade e domínio do ambiente. O adolescente oscila entre o passado e o futuro, isto é, entre a infância e a fase adulta, pois enquanto apresenta comportamentos, muitas vezes infantis, tem aspirações de autonomia e independência, que ele acredita serem próprias de um ser adulto.
Enquanto processo psíquico, é algo que se dá no grupo, pois é aí onde ocorrem certos fenômenos simbólicos. Nesta fase, acontecem as identificações do adolescente, que não se dão apenas em relação à figura do pai ou da mãe (como eles gostariam), mas em relação aos vários personagens com quem ele interage em seu dia-a-dia.
Os limites da adolescência não são fixos, pois até um tempo atrás os médicos e psicólogos definiam como um período que iniciava-se por volta dos 11,12 anos e estendia-se até os 18, 19 anos, entretanto nos dias atuais parece iniciar-se cada vez mais cedo e prolongar-se cada vez mais. As meninas começam a revelar interesse pelo sexo oposto muito antes do que a idade prevista anteriormente, abandonam a boneca mais cedo, os meninos desde pequenos passam a se preocupar com as roupas que devem usar, para estarem de acordo com o grupo, já que este passa a ser sua referência. Alguns conflitos da infância são revividos agora: o menino cobra que o pai não o levou àquele final de campeonato que ele tanto queria ver, a menina lembra da sandália da Xuxa que não lhe compraram, e assim por diante.
Temos que nos dar conta de que a adolescência é um fenômeno contemporâneo e próprio da cultura ocidental; se percorrermos a história de diferentes civilizações, veremos que em algumas delas este período de vida dura muito pouco, às vezes apenas o lapso de um rito de iniciação. Creio que este processo passou a ter maior ênfase na década de 50, quando nos Estados Unidos surgiu o rock and roll, o qual é um fenômeno grupal, de ordem estética, cultural, política. Sua origem é decididamente uma produção de grupos adolescentes.
Vamos falar da importância do grupo, dos amigos…
Costuma-se dizer que é na adolescência que se forma a personalidade do indivíduo, porque é a partir da convivência não só com adultos, mas também outras pessoas da mesma idade, que irão ocorrendo as identificações, como mencionamos anteriormente. São as manifestações de comportamento mais fortes para o adolescente que irão marcar sua vida e então passar a influenciar suas atitudes e sua maneira de pensar.
Suas fontes de inspiração podem variar do amigo da escola que é um líder (positivo ou negativo!), um jogador de futebol ou de basquete, um cantor, um professor e até mesmo o pai ou a mãe. Estas diferentes matrizes, vão gerar uma mescla identificatória para o nosso querido personagem ë o adolescente!
Tenho visto muitas mães e pais com dificuldades em lidar com seus filhos, em função de não conseguir dar limites a eles, não sabem dar um modelo de disciplina, de respeito. Obviamente que esses pais não serão os ídolos de seus filhos! O ídolo é aquele que “impressiona” pelas suas ações: de enfrentamento, de coragem, de ousadia, de firmeza.
Vamos pensar por exemplo no jogador de futebol, enquanto ídolo; quem é ele? O que faz? Ou melhor o que ele fez para chegar aí? Se buscarmos exemplos em nossa realidade futebolística, encontraremos vários jogadores que venceram muitas dificuldades, pois em geral vêm de famílias pobres, têm pouca escolaridade, e hoje estão se tornando celebridades! São conhecidos e o que é mais importante reconhecidos pelo mundo todo pela sua competência, pela coragem de enfrentar uma série de dificuldades e sacrifícios e alguns são admirados até mesmo pela sua irreverência e arrogância ao lado de sua performance!
Bem se compararmos esse ídolo com aquele pai que não consegue ter coragem para “conversar” com seu filho sobre os conflitos próprios desse momento, que às vezes podem ser uma divergência de valores entre esta família e o grupo de amigos com quem o menino está convivendo.
A convivência com as leis, com as regras…
A situação que o adolescente mais questiona é a necessidade de obedecer regras, que em geral estão subordinadas às leis. Por que?
Na verdade a lei impõe limites, nos diz o que podemos e o que não podemos fazer, elas têm um caráter histórico, porque nascem de uma necessidade surgida no grupo social. A lei é para todos! E como se define quando fazemos o que não podemos fazer? É a transgressão da lei e o adolescente adora transgredir!
As leis são impostas por uma autoridade e não construídas pelo grupo e é a autoridade maior que define o peso maior ou menor de uma transgressão. Elas são conservadoras pois pretendem manter a tradição e eliminar as ameaças que visam a desestabilização do status quo. A obediência às leis nos dá um retrato do aspecto moral de uma pessoa; é a moral que nos ensina a fazer o que é certo.
E as regras, são mais ou menos agradáveis do que as leis? Bem, creio que é mais fácil lidar com estas, pois elas são construídas nos grupos e por isso mais fácil de serem obedecidas e ao serem transgredidas geram uma sensação de desconforto. Todo adolescente ao entrar num grupo, logo procura se inteirar das regras vigentes no mesmo, para poder se integrar mais rapidamente no mesmo. É por esta razão, que temos tantos jovens envolvidos com drogas!
O lado positivo das regras, é que elas podem modificar-se, de acordo com as necessidades do grupo, já que elas servem para organizar melhor as relações das pessoas. São elas as responsáveis pelo comportamento ético.
O que leva os nossos adolescentes reagirem às algumas regras dentro do contexto familiar e escolar é o fato de que muitos pais e profissionais da escola, transformam suas regras em leis, o que as torna impostas e alheias às necessidades dos jovens que convivem nesses espaços. Porém, para as crianças a obediência às regras têm um valor moral, por elas serem construídas dentro de seus grupos, atendendo a uma necessidade de organização entre eles.
Por outro lado, o adolescente provoca o adulto para obter respostas, ganhar limites e poder se estruturar. É por esta razão, que os adultos que convivem com estes jovens, necessitam constantemente objetivar tanto para eles, quanto para si próprio seus valores de vida, seu código ético e moral.
O adolescente precisa sentir claramente a linha divisória entre ele e o adulto.
O mundo (interno) do adolescente…
Por que ficar tanto tempo trancado em seu quarto?
Todas as vezes que vivencia situações de inadequação e insucesso, advém o sentimento de fracasso e em seguida refugia-se em “seu mundo”. Pelas dificuldades em adaptar-se às exigências do mundo adulto, o adolescente cria linguagens peculiares, de tal forma que passa a constituir espaços próprios, onde têm o domínio e assim demonstram seu descaso pela linguagem do mundo adulto. Nessa mesma linha, segue as questões ligadas a vestuário, maneiras de comportar-se, enfrentamento a regras e normas (tais como não gostar de estudar) em busca de originalidade e liberdade idealizadas .
Além do mais, nosso adolescente aprende rapidamente a se relacionar com imagens, mensagens, ideais que são tão primários (ou tão básicos, como dizem eles) quanto é o pai, a mãe, os irmãos. O grande veículo para isto é a TV, a Internet e eventualmente algum tipo de revista, qualquer um destes aparatos estão à disposição dele em casa, como uma figura familiar, com a qual ele pode relacionar-se diretamente e independentemente do pai ou da mãe.
Ao nos referirmos à forma de vestir-se do jovem, vemos aí uma tentativa ou até mesmo uma necessidade de disfarçar-se, de mascarar-se, pois além da forma bizarra de vestir-se, encontramos as tatuagens, os piercens, o cabelo pintado. Sua atração pelo disfarce pode ser entendida como uma maneira de tentar ser outro, o que faz parte desse processo de adolescer, ou seja, não se pode pensar nessa fase, se o desejo de ser outro, não pode circular e fazer parte de seu cotidiano.
Quando o adolescente se fecha em seu quarto, os pais geralmente, ficam muito preocupados, por acreditarem que ele está se isolando da família e do grupo de amigos. Porém, o que há dentro do quarto de um adolescente? Além de sua cama, que representa um ninho ou um colo acolhedor, há um aparelho de som, uma TV, seus CDs, um computador, posters colados a parede onde estão estampados seus ídolos (imagens identificatórias). Portanto, vemos que este quarto está repleto de objetos que representam “o outro”, e poderíamos dizer o grupo, além do que atualmente a comunicação com o mundo exterior é feita pelo telefone e pela internet, instrumentos com os quais o adolescente é capaz de passar horas ininterruptas.
Se pudermos entender esses signos, aos quais o adolescente procura se apegar, teremos uma melhor compreensão dos conflitos, dos desejos e expectativas vividos por ele. O adulto que procura ser companheiro desse jovem, tem a possibilidade de abrir um espaço de conversação, para que as ansiedades e anseios sejam exteriorizados e de alguma forma atendidos, talvez não concretamente, mas em forma de acolhimento e escuta.
A escola, que espaço é este?
Quase todos os pais têm a expectativa de seus filhos seja “bons alunos”, pois isto é sinônimo de que eles são inteligentes e foram bem preparados (por eles: pais) para uma vida acadêmica. Porém, esta fantasia nem sempre se realiza!
Geralmente, ao serem chamados pela escola e tomarem conhecimento das dificuldades que seus filhos estão apresentando em alguma(s) disciplina(s), os pais vivenciam uma sensação de fracasso. Este sentimento é decorrente de um pensamento (ainda que inconsciente) de que fizeram alguma coisa errada, no processo de educação de seus filhos.
Antes de pensarmos em como a família pode interferir no processo de aprendizagem dos filhos, vamos refletir sobre o que está se passando com este (jovem) sujeito, que está apresentando dificuldades com alguma disciplina ou de indisciplina.
Já vimos anteriormente, que do ponto de vista orgânico estão ocorrendo transformações que muitas vezes lhe assusta, pois desconhece o que advirá na fase seguinte dessa mudança. Além disso, seus interesses também estão se modificando: o grupo tem uma conotação diferente…