Arquivo de outubro de 2009

Teoria Cognitiva Comportamental: “Um Novo Paradigma do Ensinar a Pensar”

terça-feira, 20 de outubro de 2009

“Se (ensinar a pensar) não é possível, e o tentamos fazer, talvez estejamos a desperdiçar algum tempo e esforço. Se é possível,e nós não o tentamos,o custo inestimável serão gerações de alunos (futuros profissionais) cuja habilidade para pensar de modo eficiente será menos do que aquilo que poderia ter sido”.

Nickerson, R.S., Perkins,D.N.,Smith,E.E.(1985),The Teaching of Thinking New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates

O presente artigo constitui um esforço de relevo sobre o tema, pois ao abrir caminho para educação cognitiva como resposta válida e credível para responder aos problemas de habilidades sociais, fornece pistas teóricas e práticas de grande utilidade para quem no seu quotidiano lida com ser humanos que utilizam a sua cognição para aprender a viver.

A Terapia Cognitiva Comportamental é uma das abordagens que tem demonstrado grande êxito pelos resultados obtidos no tratamento dos mais variados transtornos e patologias clínicas. Sua base teórica trata da compreensão dos processos cognitivos e sua rede de significados que são propiciados por meio da percepção, seleção e significação das informações provenientes do meio externo.

É desse modo que cada indivíduo tem sua interpretação da “vida” de um modo único e idiossincrático. Na trajetória de sua história de vida cada indivíduo enxerga o mundo ao seu modo e este modo de enxergar é pautado em “crenças” que nada mais são que “valores” que os indivíduos constroem através de suas experiências na sua trajetória de vida. Fundamentados sob esta condição nas concepções cognitivistas exibiram as mais diferenciadas ferramentas de ajustes cognitivos como os registros de pensamentos disfuncionais (J.Beck,1997), as técnicas de reestruturação cognitiva (Beck e Freeman,1993), o processo de identificação das crenças irracionais (Ellis,1988) assim como a prática da correção ou substituição dos padrões disfuncionais em padrões mais funcionais do pensamento. Nickerson (1985, cit.in Beltrán,Moraleda,Alcañiz,Calleja e Santiuste,1990) afirma mesmo que o ensinar a pensar ou treino cognitivo não só de ser um objetivo educativo legítimo como deve constituir um verdadeiro imperativo,pois,como refere,é difícil imaginar “uma meta educativa mais importante do que o ensinar e aprender a pensar de um modo mais efetivo quando a Humanidade padece de múltiplas ameaças causadas por comportamentos irracionais” (Vitor da Fonseca e Victor Cruz,2002).

Neste sentido o ‘conhecimento’ foi aceito como representação direta do mundo exterior, cabendo ao terapeuta (profissional da área da saúde) auxiliar o paciente entender e se ajustar ou aperfeiçoar aos padrões mais condizentes com a realidade social estabelecida. Agindo dessa maneira, o terapeuta ‘sabe’ aquilo que é melhor para seu paciente. Isto se explica porque ao pensamente foi atribuído um caráter determinante e, à sua disfunção a diversas psicopatologias. Quanto às emoções intensas, figuras indesejáveis ao bem – estar humano restou-lhes unicamente o controle.

A destreza e o manuseio pelo paciente dos diferentes modos de entender a realidade fez com que, em certo sentido, o organismo fosse entendido como passivo às interferências do meio,devendo então se curvar e, face aos eventuais erros do pensamento,exibir maior adequação. O objetivo da compreensão da teoria cognitiva comportamental  não é de interpretar ou uma tentativa de ‘criar’ uma teria de leis gerais sobre o funcionamento da psique humana,mas levantar hipóteses gerais de como  o indivíduo construiu a sua realidade,analisando os padrões de pensamento gerados por estas crenças,que, quando s inadequadas ou disfuncionais,podem vir a criar sofrimento para o ser humano. Através das técnicas cognitivas propõe-se, a mudança dessas crenças e, como conseqüência sobrevém o alívio do sofrimento seja ele emocional, físico ou orgânico.

Concluindo: Muitos pensamentos considerados “corretos e verdadeiros” podem refletir percepções distorcidas da realidade e podem ser indícios de dificuldades em lidar consigo, com o mundo e com o futuro. Importante para todo e qualquer terapeuta da área da saúde é sua habilidade de relacionamento, tanto com o paciente quanto do profissional, são variáveis altamente relevantes no estabelecimento desta nova relação,

Determinando significação à probabilidade de resultados benéficos ou distintivos. Considerando que a aliança é,ao mesmo tempo,interpessoal e interativa a habilidade e a história passada não só do paciente,mas também do terapeuta, podem desempenhar um papel desempenhar um papel nesta configuração.E em sendo assim todo e qualquer terapeuta da área da saúde com formação teórica  cognitiva comportamental terá probabilidade de exercer sua profissão com excelência.

 

Dra.Cleomar Landim de Oliveira

 

Bibliografia:

- CRUZ, Victor e FONSECA, Vitor da Educação Cognitiva e Aprendizagem   Porto Editora, Porto,Portugal, 2002

Técnicas de arte e o seu uso na intervenção psicopedagógica

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dizer do valor do desenho como meio facilitador da intervenção psicopedagógica parece-nos supérfluo em um trabalho deste tipo. Embora não se tenha muitas obras específicas no campo psicopedagógico, sabemos que a partir de 1985 tem sido escrita, inúmeras obras sobre o desenho e desenvolvimento global e intelectual, desenho e aspectos de aptidões e interesses, desenho e personalidade, patológica, diagnóstica e terapêutica. E é nesta obra que o psicopedagogo tem que buscar subsídios para a sua prática. Goodenough (1928), Goodenough e Harris (1950), Naville (1950), Riax (1951), Dias Arnal (1959), Stora fizeram revisões bibliográficas muito importantes até 1960. É evidente que desta data até o momento essa lista foi acrescentada de vários trabalhos principalmente no que diz respeito ao estudo da personalidade patológica, diagnóstico e terapêutica, todos voltados para a atuação psicológica e psiquiátrica, mas que não deixam de auxiliar na prática psicopedagógica.

É para esta práxis que vai convergir este artigo. Preocupa-nos, antes de tudo, o aspecto da utilização do desenho como técnica psicopedagógica, ou melhor, técnica expressivo-projetivas e como o psicopedagogo vai usar as mesmas.

O psicopedagogo não pode e não deve analisar a produção da criança em termos psicológicos. O desenho deverá ser usado como apoio na avaliação inicial, com o objetivo de um bom encaminhamento para outros profissionais, como: psicólogos, psicomotricistas, neurologistas, etc. E durante a intervenção como facilitador na relação inicial com o psicopedagogo, como “cartase”,onde este profissional só propicia ao aprendente uma “escuta sem nenhuma interpretação.

No desenho do corpo humano, por exemplo, o psicopedagogo se prende aos aspectos maturativos, baseado em Escalas como a de Wintsch.

É importante saber que o desenho do corpo aparece primeiro de frente e posteriormente de perfil; das figuras paradas (estáticas) passa-se de maneira progressiva as figuras em movimento. A criança inicialmente desenha os membros superiores, depois inferiores e finalmente todo o corpo.

O desenho inicial é celular, tomando uma forma de saco, onde colocam quatro traços à guisa de representação dos membros superiores e inferiores. A célula inicial caminha para uma pré-geometrização, gradativamente atinge a transparência e por último a tentativa de vestir o desenho. Em meio a estas fases temos duas transformações importantes, a criança passa da assimetria inicial para uma simetria radical. As mudanças gráficas acompanham de modo paralelo a evolução cognitiva, refletindo os investimentos libidinais da criança sobre o corpo. O aparecimento de estruturas base como trapézio, triângulo, etc.Demonstram a importância que a criança está dando ao seu corpo e as suas partes. A criança substitui a célula com a qual representava o corpo pelo quadrado e/ou pelo retângulo, embora o corpo esteja de frente os pés ainda são representados de perfil. Progressivamente começam as primeiras diferenciações tanto da morfologia como da ação, sendo esta última que impõe todos os traços  da representação. A proporção do desenho começa a ser esboçada mediante a disposição espacial introjetada.

A evolução do desenho do corpo passa de um desenho fantasmático, “bonhomme tetard”para um desenho de perfil e posteriormente para um desenho  de frente com mais detalhes.

Bibliografia:

Wallon, H. Lurçat, L, 1959.L’espace graphi del’enfant, Journal de psychologie normale ET pathologique, 56, 427-453.

- 1062,Espace postural ET espace environnant (le  schéma corporel), Enfance, 15, 1-33

Crianças têm mais coordenação motora aos nove anos?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Há aproximadamente três décadas tem persistido a formulação de perguntas relacionadas ao valor do ensino da escrita manuscrita script ou cursiva, no período de alfabetização. Levando-se em consideração a importância e a complexidade da escrita, pode-se afirmar que a preocupação, teórica ou experimental, é escassa frente ao processo que compreende a pesquisa de especialistas. Contudo existe algumas contribuições significativas como as de Vinh Bang, Freeman, Ajuriaguerra, Auzias e Denner.Esta escassez, talvez seja uma das causas pelas quais a nível de metodologia de sala de aula,impõem-se modalidades que se repetem ano, após ano, sem que se submeta a uma análise crítica ou uma avaliação objetiva de suas aplicações. De acordo com a psicopedagogia, as escolas que adotam a modalidade script para iniciar a alfabetização têm numerosas vantagens, porque, proporciona o conhecimento fácil, traçado simples, semelhança entre os caracteres que a criança vai ler e escrever, além de apresentar maior legibilidade e rapidez. Já a escrita cursiva ou ligada, surge de um movimento contínuo, conveniente a um nível mais elevado como o de uma de nove anos.

Uma pesquisa realizada por Vinh Bang levanta que a script não favorece a unidade da palavra e é mais lenta que a cursiva, em qualquer idade. Além disso, a script por ser uma letra mais desenhada “freia” posteriormente o movimento da escrita cursiva que, requer continuidade, flexibilidade, direcionalidade. Já Borel, constatou que a script é particularmente desfavorável para criança com dificuldades de ortográficas. No entanto, Bluth detectou que os alunos podem dominar sem problemas e com vantagens significativas, a cursiva, tendo uma grafia legível.

As razões neurofisiológicas da cursiva são várias, sendo que a mais importante constitui uma “resposta motora contínua”. As pesquisas e as considerações neurofisiológicas em relação à memória privilegiam a escrita cursiva,do ponto de vista da rapidez,qualidade e retenção da escrita.

Outras vantagens recomendam a letra cursiva: a) permite que a criança perceba cada palavra como um todo, o que certamente irá evitar a escrita em “bloco,” ou seja, sem os espaços correspondentes;b) evita que a criança tenha que enfrentar a mudança de letra ou persevere na execução de letras com formas correspondentes ao aprendizado script.

No entanto, o ensino da script não deverá excluído, pois mais tarde haverá determinadas exigências sociais ou escolares onde ela será necessária. É importante mencionar que quando a criança é capaz de escritos em letra cursiva e script,  adquire um aumento natural da função simbólica, realizando assim, um duplo manejo de código.

Profª Dra. Cleomar Landim Oliveira

TEREC – Representação Espacial do Corpo

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Segundo o criador do TEREC, David Rodrigues (2000), o Teste Experimental de Representação Espacial do Corpo resultou da reformulação de três versões prévias, que foram sofrendo alterações quanto à  objetivação do protocolo, à sua cotação,à  eliminação de itens muito fáceis ou difíceis,à economia de tempo de aplicação e à rentabilização da prova em termos de aplicação. O autor acrescenta que o TEREC foi aplicado nos Centros de Motricidade Terapêutica da FMH e objeto  de diversas monografias, o que forneceu um conjunto de informações essenciais à  versão final disponível.

Bortner e Birth (apud Rodrigues, 2000) apontam a existência de dois subsistemas funcionalmente autônomos: um de reconhecimento e descriminação que se desenvolve previamente, e outro integrativo e representativo que se desenvolve mais tarde.Esta posição hierárquica, que se alicerça nas concepções da Psicologia Genética, é basicamente seguida do Teste Experimental de Representação Espacial do Corpo que apresenta: uma parte de Reconhecimento(Re) com uma concepção semelhante à prova de Topografia;uma parte de Construção (Co) com um âmbito semelhante à de Organização; e uma terceira parte de Representação (Rep). Esta última solicita uma representação do corpo efetuada por intermédio de estruturas de tipo espacial (Rodrigues, 2000, p.124)

Por meio do processo de estimação da validade do teste, o autor afirma que foi averiguado que o teste experimental se correlaciona quer com testes de esquema corporal, quer com testes de organização espacial, fato que permitiu denominá-lo de Teste de Representação Espacial do Corpo. O ponto dominante de observação neste teste se refere á representação, encontrando-se esta capacidade devidamente diferenciada e desenvolvida nas crianças com idade entre cinco e seis anos.Por isso,o teste foi elaborado de forma a ser  respondido por crianças a partir dessa idade, sendo a amostra portuguesa, utilizada para sua validação,formada por crianças com a idade entre seis e nove anos.

O TEREC apresenta-se dividido em duas provas de dificuldade crescente: uma homolateral e a outra  heterolateral. A iniciação heterolateral de gestos é um critério muito usado em provas de esquema corporal (por exemplo, por autores como Berge-Lèsine,Wallon e Lurçat apud Rodrigues, 2000). É ainda uma importante indicação sobre a capacidade de a criança perspectivar o seu corpo em termos de uma crescente objetivação, isto é, como um objeto existencial diferente da sua própria existência corporal, e de uma crescente descentração, no sentido de uma progressiva capacidade de se colocar no lugar do outro e de analisar a validade com base em coordenadas virtuais (IBID, p.125).

O TEREC apresenta um conjunto de particularidades que justifica a sua construção e validação, uma vez que não coincidi com qualquer outro teste, dentro do mesmo âmbito de avaliação. Dentre suas características, pode-se citar: implica um menor índice de capacidade se comparado aos testes dentro do mesmo âmbito de avaliação; sua forma de apresentação, por ser um teste pouco conhecido em materiais pedagógicos ou psicológicos, provoca na criança um elevado grau de motivação e de adesão; a forma de notação do TEREC permite seja encontrado um valor numérico e, ao mesmo tempo, que seja efetuada uma análise qualitativa dos erros cometidos; o teste permite cotações parciais de itens específicos (Reconhecimento,Construção, Representação,Homolateral e Heterolateral),o que possibilita uma maior discriminação e interpretação dos resultados obtidos; a uma aplicação,em termos de tempo,de material e de pessoas envolvidas, é notoriamente mais econômica do que a aplicação de um conjunto de testes psico-educacionais com os mesmos objetivos.

Esta prova não é divulgada, tão pouco comercializada no Brasil; por isso,foi obtida uma autorização especial do seu criador,o Professor Dr. David Rodrigues,que nos presenteou com seu livro”Corpo, Espaço e Movimento – A representação espacial do corpo em crianças com paralisia cerebral”, para ser usada nesse processo experimental em crianças com deficiência mental leve. O TEREC foi aplicado no pós-teste em vinte oito crianças com deficiência mental leve.

(Esse texto foi retirado da tese de doutoramento da Dra. Cleomar Landim de Oliveira – “Deficiência Mental Leve: O lugar da Representação Espacial do Corpo na Aprendizagem da Escrita”- Universidade do Minho – Instituto de Educação e Psicologia –Defesa realizada em 15 de novembro de 2006 sob a orientação do Professor Doutor Leandro Silva Almeida)

Profª Dra. Cleomar Oliveira

Violência Doméstica… A “Culpa” não é sua!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A violência doméstica constitui um fenômeno complexo de longa data, que afeta inúmeras famílias e atinge todo lugar do mundo, independente das diferenças culturais, religiosas ou sociais. Pouco se fala a respeito deste tipo de violência, provavelmente pela crença de que o lar é um lugar seguro onde se pode crescer e aprender com afeto e carinho. Entretanto, na realidade o que se observa é uma permissividade para a exibição da força e comportamento agressivo do homem no âmbito intra-familiar. Isto demonstra a visão patriarcal que a sociedade ainda possui de família.

No Brasil assim como em Portugal, a violência doméstica tem vindo a aumentar sistematicamente e de forma progressiva. Incide fundamentalmente sobre a vida e a saúde de crianças, idosos e, sobretudo, mulheres com sérias e graves consequências no âmbito pessoal e também econômico e social, comprometendo o exercício da cidadania e dos direitos humanos. O fato desta agressão ser dirigida principalmente à companheira revela, adicionalmente, a discriminação da sociedade com relação à mulher, sobretudo  quando esta se encontra na posição de esposa, companheira.

Entende-se por violência doméstica o tipo de violência (física, sexual ou psicológica) que ocorre em ambiente familiar, seja entre os membros de uma mesma família, seja entre aqueles que partilham o mesmo espaço de habitação.

Mas o que leva a pessoa a agredir o(a) companheiro(a)? Do ponto de vista psicológico, o perfil do agressor é de um indivíduo emocionalmente imaturo, inseguro e possessivo. Exalta-se facilmente, briga por motivos banais e reage com muita frequência como se fosse uma criança, que “destrói” o brinquedo, quando este o desagrada. A mulher é encarada como objecto de desejo e de posse. Durante a crise a vítima é barbaramente espancada, independente de sua atitude, pois é a válvula de escape para os seus “fantasmas”. Existe um mito de que é a vítima que provoca os maus tratos.

Em alguns casos possuem o complexo de édipo exacerbado sendo do tipo que “bate, pede desculpa e depois jura que não lhe volta a bater”. Confessa-se arrependido, demonstrando através de palavras e carícias que a ama muito e deseja fazer amor com ela como uma forma de reconciliação. Muitas mulheres caem nesta armadilha e depois dos maus tratos vem a relação sexual: é a fase da “lua-de-mel”. São só arrependimentos, promessas e chantagens emocionais do tipo “não sei viver sem ti” ou “ninguém te amará tanto como eu”, seguido à ameaça de “se não és para mim não és para mais ninguém”.

As pessoas ficam dependentes física e mentalmente deste ciclo doentio. De um modo geral o agressor sente que tem sempre razão, agride o outro como uma forma de se impor. Outros são movidos ao álcool e sob o efeito da bebida, fazem o que lhes vem à mente, libertando-se das inseguranças, incompetência e insatisfações, sejam elas devido ao trabalho, das relações de amizade ou amorosas. O(a) companheiro(a) é o bode expiatório de todos os seus sentimentos reprimidos.
E o que leva a vítima a tolerar a agressão física por parte do(a) companheiro(a)? As pessoas que são agredidas repetidamente são de certa forma cúmplices da situação. Geralmente conviveu na infância com cenas de violência e castigos físicos e inconscientemente, na vida adulta reproduz este tipo de relação. É uma pessoa que opta normalmente por um tipo agressivo, autoritário, que confunde com o ar de “protetor”.

Para outras vítimas pode ser uma herança educacional, por terem sido acostumadas a ver a agressão como forma de afeto, proteção e carinho, confundindo com o real significado do amor. Há também o caso de pessoas que apanham por estarem acomodadas financeiramente. Estas mulheres sentem-se incapazes de se sustentarem a si próprias e aos seus filhos e assim não rompem com o parceiro. São em muitos casos impedidas de trabalhar pelo seu companheiro, para desta forma mais facilmente as manterem como reféns. Provavelmente quando crianças foram educadas de forma a sentirem-se incapazes de viver sem a proteção econômica de um homem.
Outras são agredidas por sentimento de culpa: sentem-se culpadas de não terem sido capazes de realizar um casamento perfeito. Estas de uma forma geral sofrem a violência doméstica em silêncio, escondem da família, dos amigos e dos vizinhos os sofrimentos que o companheiro lhes impõe. Como o objetivo era ter um casamento feliz, recusa-se a admitir que escolheu a pessoa errada.
Apesar de ser maltratada física e verbalmente, depois de cenas de grande violência, ainda se mostra dócil e carinhosa para com o companheiro.
Alimenta a secreta esperança de que ele mude de atitude. Estas pessoas levam muito tempo a tomar consciência da realidade, pois ninguém muda ninguém.

É uma problemática delicada de abordar e muito difícil de combater, pois as próprias vítimas sentem grande ambivalência relativamente aos autores dos atos violentos.

Existe ainda a dificuldade acrescida de, regra geral, não existirem testemunhas destes actos e quando há nem sempre desejam apresentar o seu testemunho para não se envolverem em conflitos familiares, mesmo porque se apercebem que este tipo de violência tem um carácter cíclico, como se pôde observar.

No caso da violência conjugal deixam de ser marido e mulher e tornam-se agressor e agredido e isto é crime. É preciso que a família, amigos ou vizinhos mobilizem-se para enfrentar este tipo de problema. O velho ditado “entre marido e mulher não se mete a colher” parece que já está sendo ultrapassado. E por esta razão, é hora de meter a colher!

De um modo geral este tipo de casamento acaba numa relação “entre tapas e beijos”, com cenas de pancadaria e vexame cada vez mais intensas, hediondas, podendo chegar ao óbito. Até que as vítimas deixam de acreditar na mudança prometida e decidem denunciar as agressões de que são vítimas.

A longo prazo, uma vítima de violência doméstica pode ter perturbações a nível cognitivo, de concentração e de memória. É o denominado “Síndrome da Mulher Abusada”. Estas vítimas levarão anos a encontrar o seu equilíbrio e a encontrar-se a si próprias, mas o importante é buscar essa ajuda psicológica, sem medo e sem assumir a vergonha de atos que não são seus. O agressor também necessita de tratamento.

Pelo número de casos alarmantes em Portugal, perpetrada principalmente sobre as mulheres, a violência doméstica passou a ter implicações políticas, sociais e econômicas. O silêncio é a melhor arma do agressor. Romper a barreira do silêncio é o primeiro passo, para reiniciar a construção da sua própria dignidade.

Todo ser humano tem direito a ser feliz e a ser respeitado na sua dignidade.

Solange Brígido Gonçalves