Profª Dra Cleomar Landim de Oliveira¹
Tenho observado que a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) com crianças está crescendo, mesmo frente aos mitos que sobrevivem, principalmente no Brasil. Por ser uma terapia breve, é enquadrada como um conjunto de técnicas estereotipadas, consideradas rígidas e pré-definidas, para serem mecanicamente aplicadas sem respeitar as características individuais de cada paciente, muito menos o seu nível de desenvolvimento e o contexto de seu entorno. Temos ainda outro mito que afirma a impossibilidade de uso com crianças, por exigir habilidades de raciocínio lógico fora do alcance das crianças. Contudo fica completamente fora de propósito frente a uma simples análise, seja da estrutura ou das condições característica da psicoterapia infantil.
A TCC foi desenvolvida a partir dos princípios da aprendizagem e da ciência cognitiva, oriundos de experimentos e formulações teóricas com bastante rigor. A TCC propõe que os problemas emocionais e comportamentais surgem como conseqüência de “um modo distorcido ou disfuncional de perceber os fatos, influenciando o afeto e o comportamento”, (FALCONE, 2001, p. 50).
Para auxiliar o paciente com abordagem cognitiva comportamental, o terapeuta procura entender como interagem, na vida daquele paciente em particular, três fatores: o comportamento (ou seja, o que a criança faz e como ela faz), as cognições (o que a criança pensa e sente, e como ela pensa e sente), e as condições do seu entorno (como se estrutura e organiza o ambiente no qual ela vive).
O terapeuta compreendendo como estes três fatores interagem, elabora um plano de intervenção para modificar ou corrigir a distorção ou disfuncionalidade que produz o sofrimento.
Dito isso fica bem claro que no lugar de estereotipada, rígida e pré-definida a TCC surge com um procedimento que exige alta flexibilidade e criatividade por parte do terapeuta, que deve adaptar e ajustar seu plano de intervenção às condições específicas de cada paciente, como se fosse “um alfaiate, que corta a roupa para ajustá-la às medidas do paciente (BALIEIRO JUNIOR)
Psicoterapia Infantil
A abordagem infantil em relação à abordagem com adultos os objetivos: propiciar, ensinar ou desenvolver, no paciente, habilidades e competências que lhe permitam não apenas obter o alívio do sofrimento como a retomada da normalidade da vida saudável.
A diferença da psicoterapia com adultos e a psicoterapia com crianças acontece que normalmente, que ela se utiliza de dois tipos diferentes, embora interdependentes, de atuação do terapeuta: a intervenção realizada com a criança e a intervenção realizada com os pais, ou com a família.
Quando o terapeuta trabalha ou conversa com os pais, ou com a família, o terapeuta, embora também deva se adequar ao nível cultural e à linguagem própria da família, pode atuar de modo mais diretivo e pedagógico. E ao trabalhar diretamente com a criança, o terapeuta precisa levar em conta que, a criança estando ainda em formação, ela apresenta maneiras próprias de pensamento, sentimento e comportamento, que, configuram um”mundo de fantasia”, expresso nos jogos e atividades lúdicas em que a criança se engaja. O terapeuta em sua prática na abordagem cognitiva comportamental deve adaptar seus procedimentos a cada um de seus pacientes em particular, na intervenção direta com a criança o terapeuta precisa levar em conta o estágio específico de desenvolvimento no qual ela se encontra, descobrindo e utilizando sua linguagem própria, penetrando em seu “mundo de fantasia.” O terapeuta na sua prática com a TCC em contato direto com a criança, trabalha “indiretamente”,por meio de metáforas e jogos, ajustando cada um deles ao objeto escolhido para cada etapa do plano de intervenção proposto anteriormente.
Este artigo pretende esclarecer e mostrar como a TCC por meio de técnicas, atividades e procedimentos lúdicos e metafóricos os quais pode ser usados com criança de qualquer idade, e,quando bem utilizados, podem tornar a psicoterapia um processo divertido.
Algumas Técnicas e Atividades (Balieiro Junior)
Daremos alguns exemplos de técnicas ou atividades que podem ser usadas para desenvolver as habilidades de auto-observação, de solução de problemas e de auto-instrução ou autocontrole.
O Relógio do Sentimento: é uma atividade que visa desenvolver na criança as habilidades de auto-observação dos sentimentos e pensamentos. A criança cria relógios de brinquedo utilizando diferentes tipos de papel e outros materiais, como velcro, tachinhas, etc. A criança desenha “carinhas” que expressam quatro (ou mais) estados emocionais (zangada, triste, contente, preocupada) nos lugares nos quais ficariam os quartos de hora (3:00, 6:00, 9:00 e 12:00) Quando o relógio estiver pronto, a criança pode usá-lo tanto para se expressar, ajustando os ponteiros de acordo com o estado que está sentindo naquele momento, o que permite à criança, de um modo divertido, expor seus sentimentos para o terapeuta e pais, ao mesmo tempo que estimula o auto-exame e a auto – expressão das emoções.
Terapeutas criativos podem criar inúmeras maneiras de usar o relógio.
A Locomotiva do Medo: é uma atividade que visa ensinar habilidades de auto-observação dos sentimentos, mas que põe sua ênfase na observação do medo e da ansiedade. O terapeuta, conversando com a criança, compara a ansiedade a um trem, que corre nos trilhos, mas está fora de controle, e,com isto, abre caminho para atividades lúdicas de elaboração e aprendizagem sobre o medo e a ansiedade utilizando a metáfora do trem e do “mundo” ferroviário, com estações, passageiros, viagens, locomotivas,vagões,maquinista, foguista etc. Após ter sido apresentada à metáfora, a criança é convidada a desenhar uma locomotiva, colorindo-a com a cor que melhor representa sua ansiedade. Inicia-se, então uma viagem de fantasia, em que o trem passa por diversas estações, como o corpo, a mente, as ações, os contextos, as pessoas, as relações, etc.A cada estação em que o trem pára, a criança é convidada a explorar sua ansiedade, identificando-a, percebendo como ela se manifesta naquela estação, relacionando-a com as características daquela estação, etc.
A metáfora da ansiedade como uma “locomotiva sem controle”, além de criar uma “forma” de representar a ansiedade e oferecer um referencial concreto para o pensamento da criança, apresenta vários aspectos adicionais que são muito valiosos para ajudar a criança a construir seu entendimento sobre a ansiedade e aprender a controlá-la. Dentre estes aspectos, podemos citar: – assim como a locomotiva “corre sobre os trilhos”, a ansiedade também tem seus “trilhos”: os pensamentos automáticos e as reações condicionadas; – assim como a locomotiva passa por várias estações, cada uma com suas características, a ansiedade envolve diversos componentes, ou aspectos (ambientais, cognitivos, interpessoais, comportamentais, emocionais), sobre os quais a criança pode aprender muito durante as suas “viagens”; – assim como o trem carrega passageiros e é “dirigido” pelo maquinista, a criança pode aprender a diferenciar o papel de “passageiro” da ansiedade do papel de “maquinista” dela, podendo então aprender como sair de um para o outro, passando de uma atitude passiva para uma atitude ativa a respeito da ansiedade; – assim como o maquinista controla a locomotiva olhando os mostradores dos instrumentos e do motor, o controle da ansiedade exige que a criança aprenda a olhar seus próprios sinais indicadores do surgimento e da intensidade da ansiedade; – assim como o maquinista dispõe de “freios” para reduzir a velocidade da locomotiva, a criança pode desenvolver meios de reduzir a ansiedade,como as técnicas de interrupção dos ciclos automáticos de pensamento que alimentam a ansiedade; – assim como a velocidade da locomotiva é mantida e aumentada pela quantidade de carvão que é colocada na caldeira, a criança pode aprender a diminuir “a temperatura da caldeira” ou a “força do motor” através de exercícios de respiração e relaxamento; e assim por diante.
Podemos ainda citar uma outra vantagem da Locomotiva do Medo que permite ao terapeuta conhecer com mais detalhes os medos e ansiedades da criança sem que ele tenha de interrogá-la diretamente, o que é muitas vezes inútil, senão contraproducente.
Estátua: é uma técnica que, usando uma brincadeira bastante conhecida visa ensinar habilidades de auto-observação, como foco nos sinais internos (interoceptivos) de caráter fisiológico, cognitivo e emocional. Também auxilia a desenvolver habilidades de auto-instrução e autocontrole.
A brincadeira é bem simples: o terapeuta diz “Valendo!” e a criança começa a movimentar-se (caminhar,dançar, brincar, etc.); quando o terapeuta diz “Estátua!”, a criança deve parar ou mais rápido que puder, ficando imóvel na posição que estava quando o terapeuta disse” Estátua!”. A parada brusca cria tensões corporais, que o terapeuta utiliza para ajudar a criança a desenvolver a própria percepção interrogando-a sobre o que percebe no próprio corpo (músculos, respiração, posição, etc.).
Depois que a criança consegue identificar as tensões que produz, o terapeuta pode aprofundar o uso da técnica, em duas direções: por um lado, levando a criança a comparar as sensações da experiência de estátua com as sensações da experiência do medo, o que permite à criança aprender a identificar os sinais de ansiedade; por outro lado, o terapeuta pode aproveitar a pose de estátua para ajudar a criança a desenvolver técnica de imaginação ativa que a ajudem a diminuir a tensão.
Num nível metafórico, a brincadeira de Estátua! Ajuda a criança a pensar na “interrupção” provocada pela ansiedade e pelo medo. Como é uma brincadeira muito comum, inclusive em escolas, Estátua! Pode ser combinada, criativamente com outros tipos de brincadeira, como a Máscara do Herói além de ensinar habilidades importantes para a Locomotiva do Medo.
A Máscara do Herói: é uma atividade destinada a ensinar procedimentos de solução de problemas, através de um jogo no qual a criança escolhe um herói (por exemplo: pai, professor, amigo, atleta famoso, autor / atriz, figura histórica), depois faz uma “máscara” deste herói, colocando sua figura em um pedaço de cartolina com formato de rosto, como aquelas máscaras de papelão que usamos no carnaval.
Usando a máscara a criança “faz de conta” que é o herói, e que vai enfrentar diversos desafios, nos quais se inclui os problemas que foram escolhidos para serem trabalhados na sessão ou estágio. A tarefa do “herói” é criar soluções alternativas para os problemas escolhidos.
Ao colocar a máscara e “torna-se outra pessoa”, e ainda por cima outra pessoa “poderosa” “herói”, a criança tem bastante alterada sua perspectiva do problema considerado, em importantes aspectos, dos quais vale destacar: – como o problema está sendo abordado pelo “herói”, a criança consegue ganhar distanciamento emocional do problema, o que facilita a consideração das características do problema; – olhando o problema da perspectiva de outra pessoa (o “herói”), a criança consegue evitar a pressão para resolver o problema, ganhando em flexibilidade de pensamento e podendo explorar alternativas para a interpretação e para a solução da situação do problema; – sendo o “herói” ( e “herói” tem “poderes”), a criança pode questionar suas crenças sobre sua própria competência, abrindo caminho para romper as barreiras do”eu não consigo” e identificando habilidades e recursos que tem ou precisa aprender e desenvolver; – ao explorar formas diferentes de pensar sobre o problema e soluções alternativas, a criança pode mudar a perspectiva que tem sobre si mesma, ganhando auto confiança.
Este jogo também permite explorar o modelo de representação da criança sobre si mesma, o mundo e os problemas que enfrenta, possibilitando ao terapeuta identificar com maior facilidade as habilidades e as dificuldades da criança sem que seja necessário questioná-la diretamente, como no Jogo da Locomotiva do Medo.
Reciclar os Pensamentos: é uma técnica que visa desenvolver a flexibilidade do pensamento e habilidades de auto instrução e auto controle. Esta técnica é mais facilmente usada com criança pré-adolescente e adolescente, que já possui alguma experiência do mundo e conhecem dinheiro.
A metáfora base desta técnica é a substituição de notas de dinheiro desgastadas por notas novas, um processo de reciclagem comum em nossa sociedade. O terapeuta associa os habituais pensamentos e interpretações negativas às notas de dinheiro desgastadas, amassadas e sujas, que devem ser substituídas por notas “estalando de novas”, as quais trarão pensamentos e interpretações mais produtivas.
As crianças são instruídas a escrever seus pensamentos negativos em pedaços de papel em formato de notas, que são então amassadas e sujas, como se fossem notas de dinheiro muito usadas. Depois recebem papéis novos, no quais devem escrever as declarações positivas que irão substituir os pensamentos antigos e gastos. Estes papéis novos são entregues ao terapeuta que os deposita no “banco”. Finalmente, as crianças vão ao “banco”, trocar as notas velhas pelas notas novas.
Nesta tarefa, a realização física da troca facilita a memorização e a simbolização da troca. As crianças são então instruídas a usar as notas “novas” sempre que os pensamentos negativos (as “notas velhas”) aparecerem, levando consigo os recursos desenvolvidos na terapia, para o seu dia a dia. Além disso, a metáfora aproveita a onda de “reciclagem” que o crescimento da consciência ecológica vem criando em nossa sociedade.
CONCLUSÃO
A TCC, ao contrário do que é veiculado em diversos mitos, é uma experiência rica, exigindo dos seus terapeutas uma atitude permanente de criatividade e atenção para as condições específicas de seu paciente a cada momento.
É necessário ressaltar que as exigências de planejamento, definição de objetivos e avaliação constantes e permanentes não são uma “camisa força” para o terapeuta, mas antes uma maneira rigorosa e experimentalmente testada de garantir a qualidade da intervenção [...]. Se este rigor for combinado com a flexibilidade e criatividade que propusemos, a TCC mostrar-se-á uma experiência rica e profundamente estimulante intelectualmente, tanto para o terapeuta quanto para o paciente, criança ou não.
BIBLIOGRAFIA
BALIEIRO JUNIOR, Ari Pedro (Mestrado em Lingüística) Pontifícia Universidade Católica de Campina. Campinas, SP: ano.
BECK, Aaron e ALFORD, Brad. O Poder Integrador da Terapia cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2000.
BECK, Aaron e BECK, Judith. Terapia Cognitiva – Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed, 1997.
BERNARD, Range. Psicoterapia Cognitivo – Comportamental – Um Diálogo com a Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001.
FALCONE, Eliane. Psicoterapia Cognitiva. In: RANGÉ. Local: editora, 2001.
SOUZA, Conceição Reis, BATISTA, PEREIRA, Cristiana. Terapia Cognitivo -Comportamental com Crianças. 2001 In: RANGÉ. Local: editora, 2001.
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¹Graduada em Pedagogia pela Universidade Santa Úrsula (1976), graduada em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (1994) e mestrado em Educação Especial pela Universidade Estadual do Ceará (2003) e mestrado em Psicomotricidade (Paris – ISRP – OIPR) em processo de validação pela Faculdade de Medicina da Fundação do ABC – São Paulo e doutorado em Psicologia pela Universidade do Minho, UU, Portugal. Atualmente é coordenadora do curso de pós-graduação em Psicopedagogia da Faculdade Christus – CTEC.